20/02/16

Há dias tristes assim...

Harper Lee - 28/04/1928 - 19/02/2016
 

Umberto Eco - 05/01/1932 - 19/02/2016

12/02/16

Vargtimmen - Ingmar Bergman - 1968

«The old ones called it "the hour of the wolf". It is the hour when the most people die, and the most are born. At this time, nightmares come to us. And when we awake, we are afraid.»

Vargtimmen - A Hora do Lobo é a singular incursão de Bergman pelo território do horror, não abdicando de incluir elementos fantásticos que associariamos, num "contexto normal", a um qualquer filme de vampiros. Contudo, conhecendo minimamente o cinema e as motivações de Bergman, seria impensável esperar que esta fosse uma vulgar fita de provocar medo, servindo-se para isso de criaturas aterradoras, de sustos e de efeitos visuais. Estas componentes marcam presença no filme, mas o medo e o horror intencionados brotam de outra génese: do desmoronamento do amor e do processo de crescente incomunicabilidade e afastamento entre um homem e uma mulher (território habitual no autor). Ele, Bergman, faz-se representar por Max von Sydow, e ela, Ullmann, intrepreta-se a si mesma. O filme será o retrato metafórico daquele momento específico na sua relação, três anos volvidos desde haviam atado uma união, e dois anos depois de Persona. Funciona como uma espécie de grito surdo contra o desespero, a solidão, e a impossibilidade de duas pessoas que se amam conseguirem permanecer juntas – (não) triunfando contra o mundo que conspira à sua volta. Segundo a opinião de Erland Josephson (uma da grandes figuras da "família Bergman", e um dos actores que fazem parte do elenco de Vargtimmen), apesar de toda a carga simbolica, o filme é dos mais directos do autor – o que equivale a dizer que os monstros e pesadelos ali mostrados são bem reais.

Bergman escreveu mais tarde no seu livro de memórias, Lanterna Mágica:

«No meu filme A Hora do Lobo tentei concretizar a cena que mais me impressionou nesta obra, A Flauta Mágica. É aquela em que Tamino é deixado sozinho no pátio do palácio. Está escuro, ele luta com dúvidas, está desesperado, e diz em voz alta: "Ó noite escura, quando porás fim às tuas trevas? Quando verei a luz nesta escuridão?"

(...)

Em A Hora do Lobo, a câmara regista os demónios que, devido ao poder da música, têm uns momentos de repouso. Depois a câmara fixa-se no rosto de Liv Ullmann. Para mim isso foi uma declaração de amor, terna mas com esperança.»

 











09/05/15

Entretenimento?

Assisti recentemente a dois filmes de tiros e pancadaria "modernos", sem pretensões de saírem do território do "puro entretenimento" (manual de instruções: 1- desligar o cérebro, 2 - assistir com um pacote razoável de pipocas ao lado, 3 - regressar à realidade, assegurando que não restam quaisquer vincos na memória), e que na sua passagem pelas salas de cinema resultaram em assinaláveis sucessos de bilheteira — de tal forma que já se preparam as inevitáveis sequelas. Foram eles: The Equalizer - Sem Misericórdia (Antoine Fuqua, 2014) e John Wick (Chad Stahelski e David Leitch, 2014). Não sou de maneira nenhuma adverso a entrar neste tipo de projectos de bom grado, deixando de fora juízos de valor pré-concebidos. De certa maneira, é do balanço assertivo e consciente entre os objectos de entretenimento e aqueles com intenções artísticas mais vincadas que surge o equilíbrio e o prazer no seu consumo (seu, nos dois casos). Um bom filme de porrada sabe muito bem de vez em quando. É também com esta noção em mente que me permito apreciar cada obra no seu contexto específico, mas isto não impossibilita que, dentro desses mesmos espaços, haja lugar para o óptimo, para o mediano e para o execrável. Fechar os olhos a determinadas situações, a determinados exageros, certo, mas só até certo ponto. 



Sobre The Equalizer, podemos evidenciar que conjuga em si todos os clichés da estafadíssima fórmula do justiceiro impoluto que castiga os maus da fita com o grau de violência adequado à sua malvadez (a César o que é de César...), e que segue a receita provada em "Rambo", ou "Batman", ou "Bourne" ou... (escolham uma ou várias hipóteses) do one-man-army que sozinho chega para todas as encomendas. Um homem de aparência "simples", interpretado por Denzel Washington, que limpa o sebo a dezenas de inimigos, antevendo cada uma das suas estratégias combinadas e cada um dos seus aparatosos golpes físicos (como a câmara não se cansa de o sublinhar, tudo em slo-mo), que é imune à dor física, e que é suficientemente seguro para encaixar nas calmas o grande oceano da dor emocional. Este homem que não chora tem inclusivamente uma sequência à altura do "like tears in the rain" de Blade Runner — as lágrimas que escorrem dos seus olhos a rodos no momento em que dá cabo do vilão (Marton Csokas, na pele de outro personagem estereotipado, elevado aqui à quinta potência da crueldade e frieza) não lhe pertencem, mas descem de forma intensa pelo seu rosto, como se ele as tivesse a verter — é absolutamente devastador e estupidificante encontrar uma sequência desta grandeza e potencial numa personagem tão unidimensional e vazia como a de Washington. Assim como o é encontrar referências literárias metafóricas que batem absolutamente certas com o pathos dessa mesma personagem. É o velho de Hemingway que trava a ultima grande batalha da vida dele contra uma força em teoria muito superior e que, apesar do desequilíbrio, se mantém fiel à sua natureza, é o Dom Quixote, o cavaleiro da armadura brilhante que vive na fantasia de ainda significar a diferença quando o mundo já "avançou" e não quer saber mais  dele (nem falta um Sancho Pança gorducho e desajeitado para fazer parelha com Washington), e é ainda o Homem Invisível, de Ralph Ellison (não confundir com a personagem de Wells) e a questão de quem o vê ou não vê. Estas obras encontram de facto uma significância prática na narrativa, mas encontram também o seu encarceramento na mais maniqueísta e inconcebível personagem que Washington já interpretou, uma espécie de cruzamento entre o "Man on Fire" de Tony Scott (aí, muito mais humana e enraizada na sua dimensão intelectual, na sua dor, na sua amargura e sentido de honra) e o Taken de Liam Neeson (na facilidade com que despacha qualquer armário que lhe surja pela frente). Há ainda uma pose cool e relaxada de quem viu o McQueen em Bullit umas dezenas de vezes antes de entrar para a frente das câmaras.

Hmmmm.... onde é que eu já vi esta imagem?

Este "equalizador" foi minuciosamente preparado para responder às indulgências todas do cidadão comum que clama por justiça nos bairros problemáticos, e que gostaria de ver os males deste mundo desaparecerem, principalmente aqueles que estão "acima da justiça", se possível com ajuda de umas bordoadas bem aplicadas, "que é para eles verem se gostam". Quer os vilões, quer o herói, quer as vítimas (prostitutas-criança, escravizadas por uma rede de leste com conexões ao poder), tudo foi criteriosamente pensado para encaixar nesta fórmula, para render sorrisos de satisfação pela "justiça vingadora" dinamicamente amparada na habilidade de Fuqua a mover a câmara, e com uma ajudazita da mesa de montagem. Temos então o pacato cidadão reformado (? — ainda trabalha numa Wall-Mart), que todos os dias à noite passa no café da esquina para beber um cházito, a pulverizar primeiro uma quadrilha da mafiosos de leste maus como as cobras (4 bad-guys armados até aos dentes ficam imobilizados em 19 segundos, cronometrados pelo próprio carrasco), depois a encaixar porrada nos profissionais da "limpeza" que são enviados pelo big-boss soviético himself (um esquadrão que parece saído da tropa de elite que vimos no Predador), e finalmente a ir ele mesmo à mansão hiper-vigiada desse chefão finalizar o trabalho, para ficar "em paz com a sua consciência". Denzel Washington é o apocalipse escondido no nosso vizinho do lado, o tipo amável e simpático que nos habituámos a ver chegar a casa com as compras em sacos de papel desde que se reformou (mas o que é que ele fazia mesmo antes?) —tudo muito "bairro-americano" encenado—, e que faz rebentar um mega petroleiro com a mesma calma com que todos os dias enfia a saqueta do chá dentro da chávena. Pelo meio tem inclusivamente tempo para pôr na ordem dois polícias corruptos que estorquem dinheiro aos estabelecimentos locais (em troca de "protecção"), um contexto que só marginalmente têm que ver com a narrativa principal. Washington é o bom samaritano que não tem defeitos, não tem vícios, é a máquina de matar mais letal que os Estados Unidos prepararam para as "operações especiais" da CIA, que até faz questão de apresentar uma opção pacífica e sincera aos criminosos antes de partir para a violência e lhes partir os dentes, e que apenas tem de "pedir permissão" às suas antigas chefias para tratar do assunto da "escumalha de leste que teve o azar de vir bater à sua porta". Ele é o homem que um dia foi casado, que um dia fez uma promessa à esposa, e que por esta vez vai abrir uma excepção a essa promessa - o seu opositor directo é tão mau, tão feio, tão insensível à condição humana, que obriga Washington a esse sacrifício supremo. É por isso que as lágrimas lhe escorrem no final pela face abaixo - não as dele que, como o Chuck Norris, não as pode chorar, mas por ele.

Nighthawks Redux...

Limpe-se um pouco a maquilhagem e a sofisticação artística do processo de pós-produção (que, nos momentos nocturnos, se põe em bicos-de-pés para evocar os ambientes citadinos de Edward Hopper) e pouco mais sobra do que a rotina afinada de um género com longa tradição em Hollywood — nada de novo a acrescentar ao filão, portanto. Denzel Washington, por outro lado, é sempre uma aposta ganha; um actor seguro e carismático, que mesmo em modo de piloto-automático, sem uma personagem à altura do seu talento, consegue assegurar os mínimos do nosso contentamento.




O mesmo não se poderá dizer de Keanu Reeves, e mais da sua prestação monocórdica e robotizada em John Wick. Reeves é um ícone incontestável da nossa geração, um artista com imensa popularidade, catapultado para o estrelato por conta do êxito estrondoso da trilogia Matrix, mas de reduzidíssima versatilidade expressiva, sobretudo se considerarmos as exigência emocionais de muitos dos papéis que interpretou (ou que tentou desastradamente interpretar). Poder-se-á contrapor, de forma válida, que um filme como John Wick  (tiroteios em cima de pancadaria em cima de tiroteiros em cima de... ) dispensa a presença de actor mais talentoso, mas não será essa alegação uma aceitação de que algo vai mal por essa indústria do entretenimento? Estaremos já demasiado habituados aos produtos da linhagem Van Damme, Chuck Norris e Steven Seagal para não nos importarmos com a credibilidade de uma interpretação? Aparentemente, sim. A julgar pelo retorno do investimento, industria deve saber que pode continuar a explorar o filão.


«Comam chumbo, escumalha!»

Em John Wick temos mais do mesmo — mais da mesma fórmula redutora usada em The Equalizer —, mas com algumas variações "coreográficas" que infelizmente arrastam em demasia o filme para os lados do artificialismo dos jogos de computador, um universo em que os níveis se sucedem, em que há sempre mais uma vida ao virar da esquina, e em que os elementos opositores estão dispostos pelo cenário em locais estratégicos, de forma a possibilitar a harmoniosa fluidez de movimentos do herói principal, que tem sempre alguém ao alcance de uma rotação, ou em linha de tiro directa. Se tomamos por certo que a verosimilhança não é uma finalidade a reclamar dentro deste género de fitas, torna-se por outro lado difícil fechar os olhos a alguns exageros mais puxados, que nos retiram o tapete à eventual suspensão da descrença. Reeves move-se pelo espaço como se conhecesse de antemão tudo aquilo que se vai passar, adivinhando e antecipando os tiros e golpes dos seus antagonistas, e oferecendo em troca uma espécie de bailado mortífero em que não falha por uma vez a pontaria. Chega a ter alguma graça a tentativa de o maquilhar com algumas escoriações e lesões derivadas dos combates (ver imagem acima), porque mesmo dentro da narrativa, considerando que aceitamos aquela ficção encenada, tais ferimentos não lhe tolhem a clareza de pensamento nem a precisão ou força física. Para uma perfuração abdominal, nada como uns comprimidos inibidores da dor, e é como se não a tivesse, para todos os efeitos — novinho em folha e pronto para a bordoada.


Não estamos no Fast and Furious, mas o "ronco do motor" é muito parecido.

A história é do mais banal que se possa imaginar, e serve apenas para acomodar um fio condutor carregado de pretextos para encaixar sequências de acção: um grupo de delinquentes invade, por diversão, uma moradia privada, brutalizam a propriedade, maltratam o proprietário, matam-lhe o cão, e roubam-lhe, por fim, o Ford Mustang de colecção que está guardado na garagem. Tudo estaria bem se a vítima dos tabefes não fosse o mais letal assassino a soldo que o submundo já conheceu, retirado há anos do "ofício de matar" para seguir os instintos do coração, abandonando a vida de violência e casando com a mulher dos seus sonhos, entretanto falecida. O cão havia sido um presente passional, de mulher para marido, e a única recordação viva desses momentos de felicidade. À dor da perda da mulher amada soma-se agora a dor da perda da mascote oferecida pela mulher amada, e a soma das dores das perdas dá como resultado o desejo de aniquilar. O mote fica dado: John Wick não vai descansar enquanto não castigar os responsáveis pelo atrevimento, mandando-os mais cedo para a cova. Por (des)interessante coincidência, o chefe da quadrilha é filho de um influente godfather mafioso, o homem que um dia empregou Wick, e que vai por seu turno recorrer a todos os meio para impedir o vingador de matar a sua descendência.

Perdido no meio dos contorcionismos da intriga, a desperdiçar um talento multifacetado capaz de voos bem mais altos, anda Willem Dafoe (o filme esforça-se para rodear Wick de personagens secundárias que deveriam contribuir para a espessura da teia psicológica — mas que só servem no fim para encher mais o chouriço da previsibilidade e esticar o tempo de fita). Dafoe, que já foi o Messias de Scorsese, o anti-Cristo de Von Trier (ou lá perto), e o sargento revoltado com o inferno do Vietname de Stone, não escapa aqui a mais uma morte requintada, e é bem possível que não haja outro actor no cinema contemporâneo com tamanha acumulação de violência e brutalidade praticadas sobre as personagens que interpretou. Paz à sua alma, que o filme, esse, não tem nenhuma que possamos lamentar.




Eis-nos chegados à razão principal para a existência deste artigo: a obra Man on Fire Homem em Fúria (2004), um refinado exercício de entretenimento (que nunca será para levar a sério) e uma das melhores fitas de acção de Tony Scott (realizador desaparecido recentemente).

Por incrível que pareça (e desviando por uns momentos a memória dos infinitos exemplos cinematográficos(?) que parecem apostados em comprovar que a pancadaria, para ter impacto e ser fixe, apenas exige uma dimensão física musculada e flexível aos seus executantes), não é necessário muita coisa, nem sequer exagerar na maquilhagem, para construir uma personagem de acção credível, que nos faça pensar que há um homem real lá dentro. Como? É simples. Basta passar uns tempos de volta dela em sequências sem pancadaria. É só isso. É abdicar de uma parte de tempo de filme que seria passado a encenar rotativos e golpes abaixo da cintura e substituir essas cenas por um convívio próximo da personagem. Não é dizer o que a motiva. É mostrar o que a motiva. Não é apresentar um rosto inexepressivo para sugerir um passado ambíguo, é partilhar com ela os minutos de angústia e desespero em que recorda esse passado. Não é dizer que está a sofrer, é vermos com os nossos olhos os motivos desse sofrimento. É perceber de onde surge a força anímica que vai fazer depois a diferença nos momentos de matar. É contextualizar e deixar as raízes crescerem. É centrar a(s) personagem(s) num modelo de vida credível e deixá-la(s) viver. Em Man on Fire percebemos não só que Tony Scott compreende estas regras na perfeição, mas que está disposto a estender este "tempo de partilha sem violência" junto da sua personagem principal para lá dos mínimos necessários. E com isso transforma uma fita que de outro modo seria um banalíssimo exercício de violência com carradas de efeitos de editing numa obra com uma espessura humana bastante invulgar para o segmento em questão. Ou pode ser até que o segmento não seja bem o mesmo dos tais Van Damme, Chuck Norris e Steven Seagal, talvez porque nunca trabalharam com um realizador com os níveis de inteligência e estaleca visual de Tony Scott. Olhando para a evolução dos filmes de Rocky ao longo do tempo, dir-se-ia que Stallone também aprendeu a lição às páginas tantas.

 Ahhhhh, já sei onde foi... foi no Man on Fire!

E uma personagem com o espaço e a densidade potenciais para poder ser vestida, apreendida e expandida por um dos grande actores contemporâneos é igual a meio filme garantido. Podia dizer que a outra meia é o tal exercício refinado de violência estilizada (que está lá e não desilude), mas o bonús deste filme vem de outro lado: Dakota Fanning. Na altura com 10 anos, esta deve ser uma das melhores interpretações que já vi uma criança erguer. Junte-se ao conjunto o tresloucado estereotipado composto, como costuma habitualmente, por Christopher Walken, e temos um inusitado Royal Flush na mão. É um filme realista? Não, não é, nem pretende ser (mesmo que os ambientes e cenários propostos no contexto sejam reais), mas é um filme com (pelo menos duas) pessoas lá dentro, e isso faz toda a diferença do mundo.

 
 Fanning & Washington - duas intepretações em estado de graça.

24/03/15

Por falar em vozes femininas deslumbrantes...


... aqui está uma revelação relativamente recente no panorama musical folk contemporâneo que ameaça deixar a sua marca — Natalie Mering, que canta e toca a coberto da sigla «Weyes Blood», às vezes a solo, às vezes com uma banda de suporte. Para nos recordar que dentro daquilo que já é belo por definição, existem vários graus de alcance e profundidade.



Best for You — ao vivo, 2014

Just Give e Summer's Gone — ao vivo, sessão de estúdio, 2015

Some Winters, do álbum The Innocentsvideoclip oficial — 2014

08/03/15

I Believe in Angels

Diz-se que hoje é um dia especial, e andam por aí indivíduos de fato e gravata a oferecer flores na rua às mulheres. Como não quero ficar ausente dessa comemoração, aqui ficam algumas vozes femininas que muito prezo:


  Patsy Cline — Crazy — 1962

Joan Baez — Diamonds and Rust —1975


 Abba (voz de Agnetha Fältskog e Anni-Frid Lyngstad) — The Winner Takes it All — 1980


The Seekers (voz de Judith Durham) — The Carnival is Over — ao vivo em 1967

21/02/15

O vício de matar




«Watch out now take care,
Beware of greedy leaders
They'll take you where you should not go,
While Weeping Atlas Cedars
They just want o to grow -
Beware of darkness.
»
George Harrison - Beware of Darkness - 1970


Não é preciso recuar muito no tempo para nos depararmos com exemplos de "colheitas duplas" em anos vintage na carreira de Clint Eastwood enquanto cineasta. Em 2008 houve lugar a Changeling — A Troca e a Gran Torino, e em 2006 a Flags of Our Fathers — As Bandeiras dos Nossos Pais e a Letters from Iwo Jima — Cartas de Iwo Jima. Mais do que encarrilar pela retórica inócua e inconsequente de tentar estabelecer qual dos filmes é o "melhor" e o "pior" de cada par, importa celebrar a vitalidade criativa de um dos grandes realizadores americanos contemporâneos ainda em actividade, e saudar a forma como, aos oitenta anos, conserva intacta a herança do cinema de recorte mais clássico (aquele que assenta na força da estruturação narrativa, no "dom da palavra do contador", para conseguir transformar de forma eficaz um conjunto de ideias dispersas numa boa história), enquanto abraça ao mesmo tempo, e sem preconceitos, as possibilidades estéticas das novas tecnologias. Eastwood é não só um cineasta americano, um cineasta da América, um narrador profundamente apaixonado pela riqueza e complexidade histórica, social e cultural da nação, mas também um "politólogo" interessado em expôr o mito, em denunciar os seus vícios e contradições. Assim se explica como na "colheita dupla" vintage de 2014 surgem filmes tão díspares, e no entanto tão coerentemente enraízados na psique americana, como são Jersey Boys (um entretém cultural sumptuoso e muitíssimo delicado, que se debruça sobre a banda de Frankie Valli & the Four Seasons), e American Sniper, uma coisa "mais séria", mais trágica, mais fracturante, com um argumento moral a defender. São ambos baseados em factos verídicos — mas convém aqui sublinhar o "baseados", não vá a parcela da ficção ganhar o volume de uma verdade social com a qual a história não pode depois competir.

Num primeiro soslaio pelo poster de American Sniper é possível que a bandeira americana se evidencie, mais até do que a figura prostrada de Bradley Cooper — esta bandeira, o mais importante símbolo representativo americano, marca presença assídua nos filmes de Eastwood, se não graficamente, pelo menos em "espírito". Havia também uma bandeira americana no poster de Flags of Our Fathers, e é por aqui que podemos começar a estabelecer um factor de identificação que contextualiza American Sniper na obra deste realizador, e também de certa forma na história da América recente. Entre estas duas obras, saltamos de uma guerra para outra, da 2ª Guerra Mundial para a Guerra do Iraque, mas enquanto o tempo cronológico avança 70 anos, o "território ideológico" parece manter-se (o tempo passa, mas as mentalidades resistem), e com ele a fixação na "grande mentira". Flags of Our Fathers (em que "as bandeiras" do título são sinónimo de "valores") denunciava a fabricação hipócrita de "heróis de guerra" a partir de uma fotografia onde estava a ser erguida a "bandeira da vitória". Uma fotografia forjada pelas instancias no poder, que vendeu um ideal de nobreza e dignidade à população para ajudar a financiar o esforço de guerra, mas que criou paralelamente uma crise existencial, um permanente estado de tormenta, na vida dos protagonistas fotografados. Aqueles que sabiam a verdade. Heróis, sim, mas não daquela maneira. American Sniper retoma a questão da ocultação da "verdadeira verdade", da fragilidade do conceito de "herói", mas fá-lo de uma forma mais subversiva, a partir de dentro — não são as instituições políticas que impõem esse "estatuto", essa ocultação, é a mente do protagonista, deformada pela experiência na guerra, que o deseja.



Neste campo, parece-me que o filme vai baralhar muitas agendas apostadas em acusar Clint Eastwood de propaganda pró-América e de glorificação da guerra, uma vez que a mensagem acaba por não resultar totalmente clara. O ponto de equilíbrio é reconhecidamente complicado de expor sem gerar equívocos, e basta recordar a forma "exuberante" como Coppola montou e musicou o ataque de helicópteros em Apocalypse Now para obtermos um factor comparativo relevante. A encenação tecnicamente apurada e "limpa" da guerra, tornando-a num "espectáculo empolgante" de assistir, a adrenalina imediatista dos combates, e a exposição daquilo que passa na mente de alguns soldados pró-intervencionismo no campo de batalha, tendem a deturpar essa mensagem, e podem mesmo inverter a sua significância. Talvez antevendo esta realidade, Eastwood esforçou-se por mostrar pedagogicamente ao espectador, e de forma algo paternalista (que no filme passa por ser literal), o que está em causa, directa e pausadamente, palavra por palavra.

No filme The Hurt Locker - Estado de Guerra (2008), um objecto cinéfilo que se regia por princípios orientadores de denúncia semelhantes aos de American Sniper (embora os mostrasse de uma perspectiva radicalmente mais "alucinada"), Kathryn Bigelow iniciava as hostilidades com uma sentença: "A guerra é como uma droga!", pretendendo com isto aludir a duas coisas: o estado de "excitação" —o "kick de adrenalina"— que induz nos momentos de tensão/combate, e o vício que não larga depois os soldados que sentiram essas emoções, impelindo-os a quererem novamente passar por elas, a quererem viver permanentemente nelas, e tornando-lhes a vida "normal" de civil num inferno — não pelos horrores que presenciaram, mas pelo desejo de retornarem a essa experiência viciante. American Sniper aborda estas questões centrando a narrativa na ficcionalização de uma história verídica —a do atirador furtivo mais mortífero da história da America, Chris Kyle—, e inserindo a(s) sua(s) mensagens morais nas quatro comissões que este soldado realizou no Iraque, ao longo de vários anos, totalizando mais de mil dias em cenário de guerra. A cada regresso a casa, a barreira comunicativa vai-se tornando mais opaca, a mente de Kyle cada vez mais fechada na dependência obsessiva, até ao ponto do total alheamento doméstico/familiar. As inúmeras e desesperadas tentativas feitas pela mulher (Sienna Miller) para que Kyle se aperceba daquilo em que se está a tornar chocam, a determinada altura, contra um muro de indiferença — a mente dele está noutro lado, e não consegue, nem pretende, de lá sair.

Tornando um pouco atrás, à infância do "herói", e tornando à questão dos "valores dos nossos pais", Eastwood é muito claro. Diz o pai para a criança Kyle e para o seu irmão mais novo: «Há três tipos de pessoas neste mundo: as ovelhas, os lobos, e os cães pastores. As ovelhas são aqueles que não reagem quando os lobos aparecem para as devorar; os lobos são aqueles que praticam o mal sem remorsos; e os cães pastores são aqueles que resgatam as ovelhas dos lobos. Nesta casa não há ovelhas!!!, e se vos apanho a agirem como lobos, encho-vos de porrada.» A história de American Sniper mostra a forma como uma pessoa repleta de ideais de "cão pastor" se transforma gradualmente num "lobo", quando exposta aos transtornos emocionais da guerra (sendo que o irmão mais novo, uma "ovelha", passará também pela guerra, mas permanecerá uma "ovelha" — há um choque ideológico sugestivo quando os dois se encontram por acaso no Iraque, e Kyle diz para o outro, "estou orgulhoso de ti!" — a resposta que recebe não é bem aquilo que esperaria).

Mais para o final do filme, e para fechar o ciclo desta alegoria sobre os mecanismos estruturantes do mal, a desumanização progressiva, e sobre o esvaziamento involuntário de valores morais, o "lobo" em que Kyle se metamorforizou ataca instintivamente um "cão pastor", numa formulação mais uma vez literal e directa — aqui em cenário doméstico, num clima de absoluta paz. É esta a mensagem do filme. A pretensa glorificação da guerra existe, mas é precisamente (e ironicamente) demonstrada pelo inverso daquilo que os detractores desta posição tentam indicar: o filme mostra a existência dessa glorificação, sempre acompanhada pela bandeira americana, no exército e na sociedade americana, mas fá-lo de forma a poder expor e denunciar as suas ratoeiras, os seus vícios manipuladores, as suas incorrectas interpretações.

Infelizmente, a força desta mensagem fica um pouco diluída na tal "zona cinzenta", onde também entra em jogo a personalidade do ser humano Kyle, e todas as dúvidas e certezas que o atormentam no "momento do disparo". Ele, que sucumbe à armadilha da adrenalina (já não é a segurança nacional nem os ideais democráticos que lhe interessam, não é a felicidade da sua família, a segurança das tropas que protege do alto dos edifícios, ou a punição dos inimigos que mataram os companheiros mais próximos no terreno, é apenas o "kick da guerra", a sensação de invencibilidade, e a obsessão de conseguir superar os desafios que estão de facto à sua altura), ele, dizíamos, é paralelamente homenageado por Eastwood ─ uma homenagem sentida a um autêntico herói americano, mas que é exultado patrioticamente pelos piores motivos. As imagens finais do seu funeral (footage real) deixam-nos um certo amargo na boca, pela ambiguidade que podem gerar num filme com uma clara mensagem política. As bandeiras americanas espalhadas ao longo da estrada, prestando a última saudação ao grande guerreiro que vai a enterrar, ignoram que o "cão pastor" se havia tornado tragicamente no "lobo" que juraram aniquilar.

O mundo precisa de aproveitar os "cães pastores" disponíveis —para manter a defesa do ideal da liberdade democrática—, mas o preço a pagar por essa necessidade é a geração consequente, e deliberada, de novos "lobos". Os heróis são também as vítimas dos conflitos — os defensores tornam-se agressores, gostam de ser agressores. Este filme não é um libelo anti-guerra (pelo contrário, parece defender a sua opção - "Não sente arrependimento por ter morto mais de 150 homens na guerra?", "Não, sinto antes um peso na consciência por não ter conseguido salvar mais vidas americanas no campo de batalha..."), mas é uma obra que entende a seu absoluto terror e coloca a nu os seus dilemas e paradoxos. Não há nada mais pungente aos olhos da sociedade do que um herói tornado mártir pela via da tragédia, mas o que é que ao certo deve ser considerado trágico num caso como o de Chris Kyle?

«General Corman: Well, you see, Willard, in this war, things get confused out there. Power, ideals, the old morality, and practical military necessity. But out there with these natives, it must be a temptation to be God. Because there's a conflict in every human heart, between the rational and irrational, between good and evil. And good does not always triumph. Sometimes, the dark side overcomes what Lincoln called the better angels of our nature
 — Apocalypse Now — 1979

09/02/15

Margin Call - O Dia Antes do Fim - J.C. Chandor (2011)



«You know, the feeling that people experience when they stand on the edge like this isn't the fear of falling - it's the fear that they might jump... »

Estamos no "momento zero" da grande crise financeira de 2007-2008, e vamos acompanhar as primeiras horas do "acordar para a realidade" numa das grandes companhias financeiras americanas no activo por esses dias (não se chega a saber o nome desta firma, mas vários paralelos, a partir da história que hoje se conhece, são inferíveis). O "momento" zero é o ponto no tempo em que alguém se apercebe, sem margem para dúvidas, de que um conjunto de fórmulas financeiras que serviam de modelo estrutural para as trocas comerciais de grande parte dos activos financeiros de risco (com alto grau especulativo e de alavancagem) estavam erradas na sua essência, de que a enorme bolha que se vinha formando nos últimos anos estava prestes a rebentar, e de que o colapso era inevitável. Significava isto, em trocos, que uma boa parte dos activos financeiros dessa empresa valiam zero, ou menos do que zero (tornando-a subitamente "ilíquida", e para lá de qualquer hipótese de recuperação), e que na mesma situação se encontravam todas as outras empresas do sector - nomeadamente bancos e agências de rating. Significava também que, assim que esta informação fosse do conhecimento público, todo o mundo financeiro se desmoronaria num rápido processo de queda em dominó, efeito a propagar-se por todos os sectores comerciais e por todos os países do mundo. Milhares de empresas na falência, milhões de desempregados, e uma enorme insegurança e desconfiança social nas instituições financeiras e nos reguladores económicos. Como de resto veio na realidade a suceder. Em Portugal, ainda estamos no fundo do poço que essa crise ajudou a cavar - e vamos tendo exemplos diários de como a história se repete, apesar de todos os avisos do passado, com o caso BES em primeiro plano.

No filme, partimos então do momento em que um especialista matemático/financeiro (Zachary Quinto) se dá conta deste pesadelo, e de como o fluxo desta informação vai subindo os vários degraus hierárquicos dentro da empresa, até chegar ao homem que é pago especificamente para avaliar contextos e tomar decisões (Jeremy Irons). Segundo as palavras do próprio, «Há três formas de ser bem sucedido neste mercado: ser o primeiro, ser mais esperto do que os outros, ou fazer batota. E eu não faço batota!» A questão da batota ganha aqui contornos de ironia, apesar da sua significância ser estritamente verdadeira naquele contexto prático: os produtos que esta companhia comercializa estão "dentro da lei regulada", e «Nós vendemos apenas aquilo que o investidor está disposto a comprar - por sua livre vontade.» O nome do jogo passa a ser, a partir dessa altura, "sacudir a água do capote" o mais rapidamente possível, vender tudo antes que outras empresas se apercebam do que está a suceder, de forma a minimizar o prejuízo. De outra forma, capitalizar ao máximo estes produtos que valem zero, vendendo-os a outras empresas ou investidores. A qualquer custo. Vender tudo durante a manhã do dia seguinte, e deixar que sejam os outros a ficar na ruína.

O filme é uma espécie de actualização de Wall Street de Oliver Stone, antecipando também os temas morais de O Lobo de Wall Street, aqui numa hipotética versão mais sóbria, sem os excessos nem os deboches dessa obra (que, apesar de tudo, estão lá nas entrelinhas, não são é esfregados na cara do espectador), sem os travelings de câmara vertiginosos nem os truques de edição desenfreada de Thelma Schoonmaker, e sobretudo sem gritarias ou pessoas a perderem as estribeiras. Estas pessoas, que se quedam sem reacção no momento em que são confrontadas com os "cálculos", ficam antes com a preocupação estampada no rosto a cada minuto que passa - uma preocupação não pela incerteza do futuro, mas pela certeza da queda no abismo (a incerteza regista-se antes em relação à magnitude dessa queda). É um filme de grandes actores e de grandes interpretações (o elenco é composto por um punhado de notáveis), embora todas bastante controladas e contidas, o que contribui para tornar o ambiente de catástrofe iminente mais pesado e sombrio, pois não há factores de distração "extra". O modo pausado e directo como Chandor filma estas personagens, como lhes dá tempo para poderem absorver a significância de cada palavra e de cada diálogo, e como as contextualiza depois dinamicamente no espaço — ora nos pisos superiores de uma dessas torres de vidro a bater nas nuvens, em escritórios open-space a abarrotar de monitores carregados de números e gráficos complexos, ora cá em baixo nas ruas da cidade, no meio dos "comuns mortais" que ignoram a tempestade que se aproxima — contribui em sintonia para esse silêncio sepulcral que antecipa o cataclismo.

É também um filme em que somos confrontados com os tubarões da alta finança, aqueles que vivem no topo da pirâmide, que controlam as equações financeiras pelas quais a sociedade de move, e que apenas vêem uma coisa à frente: dinheiro. O tipo de gente que conhece a história, conhece os mecanismos regulatórios, consegue prever os ciclos de mudança, e sabe exactamente que medidas necessita de tomar para capitalizar cada acontecimento. E para que uns ganhem e permaneçam impunes, outros têm necessariamente de perder e de cair. É ainda um filme que mostra como a vertigem de chegar a uma posição dessa "altura intocável" corresponde ao ligeiro empurrão necessário para "vender a alma ao diabo". Como refere a personagem de Kevin Spacey à de Jeremy Irons ao cair do pano: «Eu não vou aceitar a proposta por causa do teu discurso, mas vou aceitar porque preciso do dinheiro.» Não há inocentes em cargos empresariais desta "elevação", apenas autómatos que há muito perderam a sua essência humana e que agora estão racionalmente orientados para atingir um objectivo concreto. Tudo o resto é paisagem. O filme termina com o plano sugestivo de Spacey a enterrar —em sentido literal— os últimos vestígios emocionais que o ligam à humanidade. E a pá a escavar na terra continua a ouvir-se já com os créditos a rolarem.


23/01/15

"3,5 segundos", ou a continuidade e a elipse segundo o Código Hays

O seguinte excerto foi retirado de um pequeno ensaio do filósofo Slavoj Žižek, intitulado David Lynch ou a arte do sublime ridículo, constante na obra Lacrimae Rerum  (em Portugal, publicações Orfeu Negro). 

Através dele podemos ficar a conhecer os meandros do Código de Produção que regulamentou/censurou as obras cinematográficas durante os anos 30 a 60 em Hollywood (e ainda regulamenta, embora apoiando-se noutro tipo de critérios). Podemos também apreciar como a imposição de certas normas de cariz sexual acabavam por ter um efeito quase contrário aos seus propósitos, e como essas normas podiam ser habilmente contornadas, através da sugestão narrativa. 

De uma perspectiva psicanalítica, e considerando o filme Casablanca, Žižek diz-nos o seguinte:

Lenine gostava de sublinhar que, muitas vezes, podíamos obter conhecimentos importantes das nossas próprias fraquezas a partir das percepções de inimigos inteligentes. Assim, uma vez que o presente trabalho procura fazer uma interpretação lacaniana de Estrada Perdida, de David Lynch, pode ser útil começar com uma referência à «pós-teoria», a recente orientação cognitivista dos estudos cinematográficos que estabelece a sua identidade com base na rejeição completa dos estudos lacanianos de cinema. Naquilo que é provavelmente o melhor ensaio de Post-Theory, o livro que representa uma espécie de manifesto desta orientação, Richard Maltby centra-se na cena curta, mas famosa, que inicia o último quarto do filme Casablanca: Ilsa Lund (Ingrid Bergman) vai ao quarto de Rick Blaine (Humphrey Bogart) para obter os salvo-condutos que lhe permitirão, a ela e a Victor Laszlo, seu marido e líder da Resistência, fugir de Casablanca para Portugal, e daí para a América.
Rick recusa-se a dar-lhos e ela puxa de uma pistola e ameaça-o. Ele riposta: «Vá, dispara, é um favor que me fazes!» Ela vai-se abaixo e, coberta de lágrimas, começa a contar-lhe por que razão o deixou em Paris. Quando lhe está a dizer «Se soubesses como te amava, como ainda te amo», eles estão abraçar-se num grande plano. A sequência é interrompida por um fundido encadeado que abre para um plano de 3,5 segundos da torre do aeroporto à noite, com os projectores a varrer o céu, a que se segue outro fundido que nos traz de novo para um plano filmado do exterior da janela do quarto de Rick, onde este está de pé a olhar para fora e a fumar um cigarro. Volta-se para o interior do quarto e diz «E depois?». E ela continua a história…

A pergunta que surge aqui imediatamente é a seguinte: o que aconteceu entrementes, durante o plano de 3,5 segundos do aeroporto - fizeram-no ou não? Maltby tem razão quando afirma que, quanto a isto, o filme não é simplesmente ambíguo: ele indica duas coisas muito claras, embora se excluam mutuamente - fizeram-no e não o fizeram, ou seja, o filme oferece sinais evidentes de que o fizeram, e simultaneamente sinais evidentes de que não o podiam ter feito. Por um lado, uma série de sinais codificados sugere que o fizeram, isto é, que o plano de 3,5 segundos representa um período de tempo mais longo (o fundido do par que se abraça apaixonadamente, que simboliza geralmente que o acto vai seguir-se ao desaparecimento da imagem; o cigarro posterior, que constitui também um sinal clássico do relaxamento após o acto; e mesmo a conotação fálica ordinária da torre). Por outro lado, uma série de sinais paralelos indica que não o fizeram, isto é, que o plano de 3,5 segundos da torre do aeroporto corresponde ao tempo diegético real (a cama por trás não está revolvida, a conversa entre eles parece prosseguir sem interrupções; etc.) Mesmo quando, no diálogo final entre Rick e Laszlo no aeroporto, eles afloram directamente os acontecimentos dessa noite, as suas palavras podem ser interpretadas das duas maneiras:

RICK: Disse que sabia de mim e da Ilsa?
VICTOR: Sim.
RICK: Não sabia que ela esteve em minha casa a noite passada quando o Victor estava… Ela veio buscar os salvo-condutos. Não é verdade, Ilsa?
ILSA: É.
RICK: Ela tentou tudo para os obter e não conseguiu nada. Fez o melhor que pôde para me convencer de que ainda estava apaixonada por mim. Isso pertence ao passado; para o ajudar, fingiu que não era assim, e eu deixei-a fingir.
VICTOR: Compreendo.

A solução de Maltby é insistir em que esta cena é um bom exemplo de como Casablanca «se constrói deliberadamente de modo a oferecer fontes de prazer distintas e alternativas a duas pessoas que se sentam uma ao lado da outra no cinema», ou seja, que "pode tocar um público «ingénuo» do mesmo modo que um «sofisticado». Embora, ao nível da sua linha narrativa superficial, o filme possa ser interpretado pelo espectador como estando de acordo com os códigos morais estritos, oferece simultaneamente aos «sofisticados» indícios suficientes para construir uma linha narrativa alternativa, sexualmente muito mais ousada. Esta estratégia é mais complexa do que parece: precisamente porque sabemos que estamos de certo modo «cobertos» ou «absolvidos de pulsões de culpa» pela história oficial, são-nos permitidas fantasias sórdidas. Sabemos que estas fantasias não são «a sério»; aos olhos do grande Outro, não contam… Assim, a única correcção que teríamos de fazer a Maltby seria a de que não precisamos de dois espectadores sentados um ao lado do outro; um e um só espectador, dividido em dois, é suficiente.

Falando em termos lacanianos, durante os indecorosos 3,5 segundo, Ilsa e Rick não fizeram nada para o grande Outro, para a ordem das aparências públicas, mas fizeram para a nossa imaginação fantasmática sórdida. Esta é a estrutura da transgressão inerente no seu estado mais puro, isto é, Hollywood precisa de ambos os níveis para funcionar. Em termos da teoria do discurso elaborada por Oswald Ducrot, podemos dizer que temos aqui a oposição entre pressuposição e suposição: a pressuposição é subscrita directamente pelo grande Outro, não somos responsáveis por ela, enquanto a responsabilidade pela suposição recai inteiramente sobre os ombros do leitor (ou do espectador). O autor do texto pode sempre afirmar: «Não é da minha responsabilidade o facto de os espectadores extraírem essas conclusões sórdidas do enredo do filme!» E, para pôr isto em linguagem psicanalítica, esta oposição é evidentemente a oposição entre Lei simbólica (o Ego-Ideal) e o superego obsceno. Ao nível da lei simbólica pública, nada acontece, o texto está limpo, enquanto, a outro nível, ele bombardeia o espectador com o imperativo do superego «Goza!», isto é, dá livre curso à tua imaginação indecente. Dizendo-o ainda de outro modo, estamos aqui perante um exemplo claro da clivagem fetichista, da estrutura da negação – a estrutura do «je sais bien, mais quando même…». A consciência de que eles não o fizeram liberta a nossa imaginação sórdida – podemos entregar-nos a ela, porque estamos absolvidos da culpa pelo facto de, para o grande Outro, eles decididamente não o terem feito… e esta leitura dupla não é um mero compromisso da parte da Lei, no sentido em que a Lei simbólica está apenas interessada em manter as aparências e nos deixa livres de exercer a nossa imaginação sórdida, desde que isso não invada o domínio público, ou seja, desde que salve as aparências. A própria Lei precisa do seu suplemento obsceno, apoia-se nele e é ela que o gera. Então, porque precisamos aqui da psicanálise? O que é aqui propriamente inconsciente? Será que os espectadores não estão perfeitamente cientes dos produtos da sua imaginação sórdida? Podemos situar a necessidade da psicanálise num ponto muito preciso: aquilo de que não temos consciência não é nenhum conteúdo secreto profundamente recalcado, mas o carácter essencial da própria aparência. As aparências são importantes. Podemos ter as nossas múltiplas fantasias obscenas, mas é importante saber quais é que se vão integrar no domínio público da Lei simbólica, do grande Outro.

Maltby tem, pois, razão ao acentuar que o infame Código de Produção de Hollywood dos anos 30 e 40 não constitui simplesmente um código de censura negativo, foi também uma codificação e uma regulamentação positivas (produtivas, como diria Foucault) que criaram o próprio excesso cuja representação directa impediam. É elucidativa a conversa entre Josef von Sternberg [realizador de cinema] e Breen [director do Código de Produção], relatada por Maltby. Quando Sternberg diz: «Nesta altura, os dois personagens principais têm um breve interlúdio romântico», Breen interrompe-o: «O que está a querer dizer é que os dois foram para a cama. Foram foder.» Indignado, Sternberg riposta: «Mr. Breen, está a ofender-me.» Breen: «Por amor de Deus, deixe-se de disparates e enfrente as coisas como elas são. Se quiser, podemos ajudá-lo a fazer uma história de adultério, mas não se continua a chamar a uma boa fornicação um “interlúdio romântico”. Ora, o que fazem estes dois? Beijam-se e vão para casa?» «Não», responde Sternberg, «fodem.»«Muito bem», exclama Breen, dando uma palmada na mesa, «assim já percebo a sua história.» O realizador completou o esboço da história, e Breen disse-lhe como podia arranjá-lo de modo a respeitar o código. Assim, a proibição, para funcionar como deve ser, tem de se basear na consciência clara do que realmente aconteceu ao nível da linha narrativa proibida: o Código de Produção não se limitava a proibir alguns conteúdos, ele codificava a sua expressão cifrada.

Contextualizando a situação Casablanca através das imagens:















... 3,5 segundos a olhar para "a torre" ...